quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Eremita Moderno - 4º LUGAR; CONCURSO FACCAT

É tudo inexato. Completamente bagunçado, desorganizado. Mas estamos em 2045 e talvez isso signifique alguma coisa. Acordei ao som de uma antiga banda, que meus pais ouviam aproximadamente na primeira década de 2000: Forfun. A letra me chamou atenção, anotei no canto de um papel, como se fazia nos tempos antigos. “O panorama não agrada, mas não há por que se desesperar. Pela simples noção de que é uma dádiva estar vivo, que os caminhos são lindos e é necessário caminhar”. Parei um minuto para pensar, o que tem se tornado um tanto raro, já que máquinas fazem isso por mim. Temo que o meu cérebro esteja fazendo parte da antiga lei do desuso. Tudo que consegui foram cinco minutos. Míseros cinco minutos, que, na sociedade atual, contam muito. É como diz meu pai: tempo é dinheiro, pensar demais não nos leva a lugar algum. Se faz sentido ou não, não saberemos. Porque o futuro é impreciso demais para ser previsto, tudo que você pode fazer é imaginar.


Talvez as críticas que me fazem, tanto na universidade, quanto no trabalho, servem para alguma coisa. Talvez seja mesmo como meu professor disse: você pode gostar da sociedade antiga, você pode admirá-la, mas o tempo não pára para que você viva de tal forma. Sou, sim, meio antiga. Ainda não tirei da idéia o acento. E não consigo tranqüilidade sem o trema. Escuto músicas do tempo dos meus pais. Tenho o valioso hábito de, ao menos tentar, respirar um ar puro.

Era cedo quando acordei, teria aula às 9h, passei um café, o qual já estava programado nas antigas cafeteiras que nos permitiam acordar e tomá-lo ainda quente, sem ter que esperar. Nunca me adaptei aos robôs me chamando na cama e levando o café até o meu quarto. Alienada, sim. Ainda vivo no tempo em que o telefone celular me desperta todas as manhãs. Cheguei à escola, mais cedo do que costumava. Peguei um livro, abri-o. Vagarosamente comecei a lê-lo. Parecia feito para mim. As primeiras linhas diziam: tudo está complicado aqui, as flores não têm mais cor, e o céu já nem é mais tão azul. Gostava do tempo em que acordar era sinônimo de trabalho e o anoitecer de descanso ao lado de minha família, que deixou de existir há anos. Tenho saudades da vida que eu podia escolher através de meus talentos manuais, de minhas habilidades natas. Temo ser demitido do meu atual cargo profissional para colocarem uma máquina em meu lugar. Temo perder minha namorada para um robô que não se lamenta e, provavelmente, dá-lhe mais prazer do que eu. Devo admitir que nunca fui muito bom quando o assunto é sexo. As pessoas perderam o grandioso hábito de sentar na área da casa para conversar e tomar um chimarrão. Esqueceram de me avisar que os tempos são outros, e eu esqueci de aceitar a radical mudança que passa tão despercebida.

Fechei o livro ao perceber que, embora a minha sala fosse de fácil acesso, eu poderia me atrasar. Entrei no ambiente já com alguns colegas presentes, sentei-me. Pensei nos tempos em que eu era menor, quando no lugar daquele gigante computador que projetava toda nossa aula, tinha uma lousa, na qual com o giz a professora escrevia o conteúdo que nós copiaríamos em nosso caderno de 96 folhas. A matéria do dia era ‘orientação tecnológica’, que, pessoalmente, de nada me adianta. É tudo para manter um mundo globalizado, ou ao menos tentar. O computador deu a tarefa do dia: elaborar um texto, de assunto livre. Gênero: crônica. Achei estranho, mas era perfeito. E a inspiração era óbvia:

Não me sinto bem aqui. Não sei por que motivo as pessoas costumam querer sempre mais tecnologia e admiram tanto a comodidade. Eu sou de gêmeos, o tipo que não suporta o comodismo e que acha tedioso a mesmice. Gosto de ter que sofrer para conseguir o que quero, o que vem fácil, vai fácil. Inescrupulosos é o que eles são. Tempo não é dinheiro coisa nenhuma! Tempo é vida. Eu estou em um tempo e vivo em outro, não por simplesmente admirar os meus antepassados, mas por considerar absurda a idéia de máquinas pensando por mim e robôs fazendo o que eu faço. Vivendo meus dias dentro de ambientes climatizados, porque o calor já é insuportável sem um aparelho tecnológico. Minha culpa, sua culpa. Nossa culpa. Acharíamos que o mundo seria assim para sempre. Permitimo-nos a viver assim, a aceitar isso. Mesmo que eu quisesse lutar contra isso, eu não teria aliados. A não ser que eu comprasse robôs e os programasse. Não, também não. Esse tipo de programação não consta no menu robótico. É utópica a idéia de que um dia, tudo vai voltar a ser como era. Restam-me as lembranças. Espero de coração que, se você um dia ler isso e os tempos já forem outros você possa se lembrar: o passado não foi bom porque o futuro era assustador.

Enviei um fragmento de minha crônica ao computador e recebi o sinal verde, podia deixar a sala e me dirigir para casa. Fui a pé. E esse foi o meu fim, tentar respirar o ar que eu, ilusoriamente, pensava poder ser puro.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Joguei para o alto e, dormi.


Mas quando cai na indiferença percebe-se que é hora de recuar. De tirar a armadura e se jogar no sofá. Ler um bom livro, ou dois, três, quatro... Parar de esperar qualquer passo progressivo. Qualquer coisa que possa vir a surpreender. Às vezes, necessita-se de um tempo para organizar-se. Pensar. Repensar. As coisas acontecem assim, por instinto mesmo, e muitas vezes, não passam disso. O instinto também erra. Precisa parar e pensar. Saber a hora de tirar o time de campo. De desistir, mesmo que no seu aniversário, de receber alguma palavra carinhosa. Logo eu. Logo nós.
Parei. Pensei. Repensei. E me atirei no sofá. Devo estar lendo três livros ao mesmo tempo. Porque chega uma hora que cansa da mesma história. Cansa da mesma conversa de sempre. De esperar por um sinal de vida. Por uma palavra que seja: só para certificar-se que não foi passado para os outros também. Que, de alguma forma, você está vivo neles. Que você existe.
Mas isso, também cansa. Pensar que ainda pensa neles. Que para você eles estão vivos. Que o passado não apaga. Não destrói.
Mas quando percebe-se que ele também nada constrói: cansa. 
E depois de tudo isso acontecer... atire-se no sofá. Leia mil livros, eles são a porta de passagem de uma vida  não interessante para um lugar onde tudo é possível. E, às vezes, cabe a nós querer tornar tudo possível. Acreditar que somos super-heróis e que isso basta por enquanto.
Mas se isso também cansar: atire-se no sofá, jogue os livros longe e durma. Porque quem não acha uma saída nos livros, pode achar nos sonhos. Se é que nos resta algum.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Quando não dá para dizer adeus

Tem coisas que fazemos por instinto. Passei a acreditar nisso. Pessoas morrem por seguir o instinto. Às vezes nos cabe a razão e, mesmo assim, dentro dela está impregnado o instinto. É incontrolável.
Tem coisas que acontecem. E o que dizemos é: era para ter sido assim. Sabendo, no fundo, que não, não era. Foi assim por instinto. O que pode ser controlado é monótono, chato. A razão é chata.
Vivi os quinze curtos anos da minha vida seguindo a razão. Tentando seguir. Me apaixonei perdidamente, 'caladamente', 'escondidamente'. Me apaixonei por instinto, não me entreguei pela razão. E as coisas passam um dia. Pessoas são substituídas, ou não. Mas, mais cedo ou mais tarde, tudo muda.
Acontece por instinto. Com a pessoa errada, com a certa, com a ideal, com o amor da sua vida ou não, acontece. E chega a hora de se entregar, de blefar e apostar sem nada na mão. Porque as coisas acontecem por instinto, intuição ou sei lá qual nome você daria a isso.
Tem a hora de chegar e a hora de se despedir. Tem quem não siga. Tem quem não vá, quem permaneça. Por instinto, talvez; porque era para ser. E tem quem mesmo que erre mil vezes ou mais, continuará. Não se despedirá. Porque o instinto manda ficar.
Abandoná-lo seria crueldade. A razão abandonei há tempos e, querendo ou não,  jamais quero vê-lo ir.
Por instinto. Ou não.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Previsibilidade inesperada

É possível deduzir que alguém não está bem ao olhar. É dedutível que nem sempre gosta-se de ouvir lições de moral. É fácil perceber uma mentira na qual não houve coerência alguma, mas também é dificilmente compreensível a capacidade humana de perdoar tais erros e desonestidades.
Não aconteceu com você, aconteceu com uma amiga, vizinha, prima. Aconteceu com um desconhecido, você ignorou e senão, arrisco dizer, pensou: Isso que dá escolher errado!  Não é. Você sabia que ela esperava um pouco dele. Pelo menos um pouco. Você sabia que ela era difícil, que ela demorou a arriscar por acreditar na própria teoria de que ninguém é confiável e que, egoísmo não é um defeito tão grave assim. Você achava que ele era um bom pretendente pra ela, um bom amor. Desses que não cabe a mim descrever. Você viu ele se esforçar, mudar, nem que 1%, por ela. Você era testemunha de um crime escondido. De um crime no silêncio. Ilusioriamente bom. 
Você foi como ela, acreditou na possibilidade. Apostou todas as fichas. Perdeu uma a uma em uma única rodada. Ela ficou com as lágrimas, você ficou atenta. Voltaram a estaca zero: incrédulas, descrentes.
Deduz-se o que acontece. Deduz-se o rumo que as coisas tomam mesmo quando uma ponta nada tem a ver com a outra, mesmo quando o quebra-cabeça não parece fechar. Tudo faz sentido no final.
Deduz-se que não é hora de sorrir, de dar lições de moral e tampouco, de perdoar.